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  • W H T V R: Hirohiko Araki, JoJo e Gucci

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    Hirohiko Araki. Se você nunca ouviu esse nome, é bem fácil deduzir que: a) por algum motivo você não devota a sua vida à Gucci; b) você não é grande fã de mangás; e c) só por essas duas alternativas, já tá tudo errado com você, migue. Araki é um mangaká japonês reconhecido mundialmente por Jojo’s Bizarre Adventure, série de sua autoria que está em publicação desde 1987 e que completa 30 anos em Dezembro. Se o currículo dele parasse por aí, já seria honra suficiente para duas gerações de sucessores, mas tem um pequeno fator que agrega ainda mais à carreira desse cara: o mundo da moda venera ele.

    Com mais de 100 volumes publicados, quase 250 personagens e menções claríssimas à importantes personalidades das grandes artes, JoJo é um marco e uma referência aos títulos que vieram na sua sequência. Apesar de construir uma narrativa levemente quebrada e uma anatomia um pouco duvidável, é impossível negar a qualidade dos traços e da paleta de cor que acompanha a estética kitsch, presente desde a parte quatro.

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    Ao longo desse período, os traços de Araki já mudaram muitas e muitas vezes, tantas ao ponto de não conseguir mais redesenhar seus personagens antigos como eram originalmente. Apesar disso, suas personalidades são bastante particulares e reconhecíveis, o que torna quase impossível que algum deles passe despercebido. Mas, mesmo com tantas características que fundamentam a qualidade da obra, existem duas que a diferenciam de todas das outras: o conceito fashion e a maneira que os personagens posam.

    Aqui, menos não é mais, é menos mesmo. JoJo é extravagante. É fashion e brega. Moderno e renascentista. É o Japão tradicional e tudo que sequer pertence a esse mundo. Em uma entrevista para a revista Quick Japan em 2007, Araki disse que a maneira que ele desenha seus personagens é arte moderna.

    Eu quero desenhar arte inspirada na fantasia porquê eu busco a realidade na minha história. As poses são o equilíbrio perfeito entre a realidade e a fantasia.”

    Entre ameaças e frases de efeito, os personagens desafiam a própria anatomia para encarar seus inimigos. Ganham vida com movimentos suaves e orgânicos, mas explodem em fúria com a rispidez das linhas e formas geométricas. Nada de diferente se comparado aos editoriais superproduzidos das grandes revistas de moda, claramente referenciadas pelo mangaká.

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    Sendo um grande apreciador da moda, Araki deu aos seus personagens nomes de grifes e estilistas icônicos, como Ermes (Hermès), Emporio (Emporio Armani), McQueen (Alexander McQueen), Viviano Westwood (Vivienne Westwood), Donatelo Versus (Donatella Versace) e Enrico Pucci (Enrico Coveri/Emilio Pucci). Em 2010, a Ultraviolence, grife japonesa voltada para o público masculino, criou uma coleção cápsula temática de JoJo. Entre as peças estavam camisetas estampadas, os broches de joaninha do 5º protagonista, Giorno Giovanna, a famosa gravata do inigualável psicopata da parte 4, Yoshikage Kira e cintos com padrões triangulares do 2º protagonista, (e best jojo) Joseph Joestar.

    Depois disso, não demorou muito para que outras grifes se interessassem pelo senso fashion e apelo cult de JoJo. Para comemorar os 30 anos de carreira de Araki e os 90 de fundação da Gucci, a revista Spur publicou um one-shot desenhado pelo próprio mangaká, onde seus personagens vestiam a coleção de Outono&Inverno 2011/2012. Em Rohan Kishibe Goes to Gucci, Rohan (personagem que é considerado uma personificação do autor dentro de sua obra) viaja até a Itália para descobrir a história de sua bolsa Gucci, herdada de sua falecida avó. Pouquíssimo tempo depois, para a coleção Cruise 2013, a Gucci convocou Araki mais uma vez para vestir seus personagens com peças da grife Italiana em uma panfletagem pesadíssima. Jolyne, Fly High with Gucci, apresenta a protagonista da parte 6, Stone Ocean, ao lado de Bruno Bucciarati e Leone Abbacchio da parte 5, em um mundo repleto de florais e cenários líricos, característica marcante da grife. Ao todo, foram 70 fachadas instaladas no mundo inteiro com Jolyne, Bucciarati, Abbacchio e Rohan, em reimpressões para juntar-se à “exposição”.

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    Eu não tô brincando quando eu digo que sou completamente doente por Jojo’s Bizarre Adventure. É uma história que foge do clichê e de qualquer coisa que você já tenha visto antes (eu acompanho desde 2014 e até hoje nunca me decepcionou). Depois de ser tão pisada por essa parceria e de dar soco na cara de quem diz que mangá pra criança, só resta admitir que a conexão Japão-Itália é o fluxo.

  • K P O P
  • W T H V R: Supreme, NCT127, Barbara Kruger e os direitos autorais

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    Moda. Música. Design.
    Esquece o papel higiênico, esse é o meu básico para sobrevivência. A importância de cada um é bastante única e individual pra mim, bem como o interesse, que surgiu em momentos chave da minha vida. A mínima relação entre dois desses tópicos já é o suficiente para me deixar obcecada por qualquer projeto. Mas no momento em que os três estão envolvidos, se referenciando e se retroalimentando, eu preciso escrever sobre.

    Como uma boa viciada no Pinterest, peças da Supreme já cruzaram a minha dashboard algumas vezes. Camisetas com jpegs de celebridades, a famigerada caixa vermelha, a Futura Heavy Oblique e é isso – e também não precisa de mais nada. A moda estava ali e supria um dos três básicos. Mas depois do comeback, Limitless da segunda unit do NCT, o NCT 127, eu fiquei completamente obcecada pela marca.

    O styling é perfeito, a música é f*da e a estética se diferencia de tudo que o K-Pop já produziu até agora. (parabéns, sm! to na torcida por muitos 1st win. e isso vindo de uma YG Stan) Tudo nesse comeback parece ter sido feito com muito cuidado. Aliás, tudo que envolve o NCT parece muito meticuloso, como por exemplo a continuidade das cores nas capas dos álbum do NCT 127 e do NCT U. (NCT dream não segue a mesma linha, mas faz sentido por motivos de conceito) Os teasers em vídeo e as fotos individuais faziam meus olhos brilharem. Gente, eu juro, os caras são bem gatinhos, (Yuta, Taeyong, Doyoung e WinWin vcs tão de parabéns) mas foi a tipografia que me deixou sem ar.

    Anos atrás, eu tive sérios problemas em aceitar qualquer coisa feita com Helvetica – não vou mentir, ainda tenho. Mas a verdade é que ela é uma fonte que só fica legal real oficial na mão de quem sabe fazer bonito. Esse é o mesmo complexo da Comic Sans, por exemplo. Todo mundo tira onda com ela, mas ela foi feita para cumprir um determinado papel e não o de estar na fachada de uma clínica odontológica.

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    Como se não bastasse usar Helvetica bem pra caramba e modificar a Disclaimer o suficiente para dar cara à todas as units e singles até agora, a paleta de cor é tão imponente quanto a tipografia. Meu nome é Celeste, amo o azul que acompanha o meu nome e a cor da minha alma é rosa pastel, mas eu preciso urgentemente de roupas que misturam vermelho com preto e branco. A Supreme influenciou não só o styling, mas a estética de um álbum inteiro. A moda e a música estavam esclarecidos, mas de onde surgiu o design? Barbara Kruger!

    Barbara nasceu em 26 de Janeiro de 1945 em Newark, New Jersey, e se consagrou como uma artista conceitual e colagista. As obras dela fazem críticas à sociedade moderna e ao consumismo, além de promoverem o feminismo, empoderamento e um debate aprofundado sobre a identidade de gênero. A estética que ela criou, praticamente assina todas as suas criações e é conhecida mundialmente. O próprio logo da Supreme é, inegavelmente, uma referência ao trabalho de Barbara, o que confunde a minha cabeça, já que em 2013, a marca que nasceu em 1994 estava processando a artista que aplica essa estética desde pelo menos 1981, ano da sua primeira publicação de trabalho, a fim de proteger o design que eles dizem ter criado. (WHAT THE ACTUAL FUCK SUPREME)

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    Não sei exatamente qual a moral dessa análise ou que eu queria provar com isso, mas para finalizar: a) SM está fazendo um trabalho de design e conceituação incrível. A última vez que eu fiquei tão apaixonada foi com f(X) em Four Walls. #QueroComebackDeF(x) b) O design de marca da Supreme é da Barbara Kruger, mas as roupas são deles. Ou seja, os caras são uns babacas mas mandam muito bem. c) Toda essa pesquisa me fez lembrar de alguns dos meus primeiros trabalhos para a minha primeira agência. (esses posts da direita) Não me impressiona ter gostado tanto de NCT, tudo faz sentido agora.

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  • M A I N
  • W H T V R: Empoderamento das sukebans

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    A essas alturas já não é novidade eu trazer um post sobre cultura asiática pra cá. Só de ouvir falar no Japão, por exemplo, me dá uma puta sensação de ansiedade, uma vontade absurda de devorar qualquer informação sobre os olho puxado. A cultura dos caras é foda, não tem como negar. E, dessa vez, eu vou falar sobre as Sukeban, girl gangs compostas por adolescentes de classe média que odiavam o mundo e a sua cultura sexista. (fala sério, como não se apaixonar?)

    A década de 70 foi um período de breve libertação para as jovens japonesas. A existência de grupos como as yanki e as motoqueiras bosozoku, que hoje chamam a atenção nas ruas do Japão, tem sua independência graças às gangues de garotas do final dos anos 60. Desconstruindo o ideal masculino de mulheres frágeis e colegiais inocentes, as Sukeban (girl boss, em tradução literal) queriam chamar a atenção. Elas customizavam seus próprios uniformes de marinheiro com patches e botons, trocaram as saias curtas, por longas (um protesto contra a sexualização das adolescentes) e estavam quase sempre armadas com bastões de baseball, correntes e lâminas que pudessem carregar por baixo das roupas. Elas criaram um grupo ao qual se identificavam e pertenciam: a sua própria yakuza.

    “Na yakuza, as mulheres não têm autoridade e quase não há membros do sexo feminino. Que as gangues de garotas tenham sequer existido é uma raridade na cultura geralmente sexista dominada pelos homens no Japão”, explica o escritor Jake Adelstein, especialista em crime japonês.

    “O mundo estava falando de feminismo e libertação, e talvez elas sentissem que as mulheres também tinham o direito de ser tão estúpidas, promíscuas, viciadas em adrenalina e violentas quanto seus colegas homens”. As sukeban cometiam crimes pequenos e constantemente brigavam com gangues rivais de regiões próximas às suas. Mas, apesar de delinquentes, sua lealdade e companheirismo eram admiráveis, bem como a sua hierarquia, nos mesmos moldes da yakuza. Queimaduras de cigarro e pequenas humilhações eram sentenças menores por roubar um namorado, por exemplo.

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     Para a rebeldia dos anos 70, o uniforme escolar de marinheiro era um símbolo de tradição desnecessário, mas impossível de evitar. Depois de formadas, as sukebans mantinham seus uniformes como uma forma de identificação dos grupos. Elas estilizavam seus casacos e blusas com rosas bordadas e kanjis com mensagens anárquicas, um reflexo do punk britânico onde se customizava as roupas com o que se tinha em casa.

    Não demorou para que a mídia se interessasse pela nova febre, produzindo filmes a programas de TV. Essa ascensão colocou as mulheres em uma posição de destaque, inspirando uma série de filmes “Pinky Violence”, voltados para o público adulto. “Era o tipo de solidariedade radicalmente feminina que não só era incomum para a época, mas para o cinema de todas as épocas”, explica Alicia Kozma, autora de Pinky Violence: Shock, Awe and the Exploitation of Sexual Liberation .

    “Como as mulheres do elenco desses filmes geralmente não eram atrizes profissionais, usavam suas próprias roupas no filme, faziam seu próprio cabelo e maquiagem, isso era um tipo de autenticidade profundamente sentida e incrivelmente rara”.

    “O legado das sukeban se tornou maior que a soma de suas partes — o que começou com gangues de ladras indisciplinadas se transformou, com ajuda da bolha econômica e do crescimento da exposição na mídia, um dos principais componentes do retrato das mulheres nos anos 70.” Em um trecho do artigo “How Vicious Schoolgirl Gangs Sparked a Media Frenzy in Japan” do site Broadly.

    “Elas se tornaram a representação das dicotomias sociais, culturais e políticas que a sociedade japonesa estava experimentando na época”, diz Kozna.

    “Num nível mais amplo e universal, a ideia de mulheres se comportando mal sempre foi atraente para o público, especialmente porque é um desafio à maneira como as mulheres são universalmente ensinadas a agir.”.

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    Mesmo com a gigantesca propagação da subcultura, hoje no Japão, já não se encontram gangues que mantenham vivo o espírito e a ideologia original. E, apesar da popularidade, é muito difícil de encontrar qualquer material sobre o tema, já que a influência das sukebans acabou se misturou aos modismos das gangues ocidentais.

    Mesmo tendo se diferenciado das suas predecessoras aderindo novos comportamentos como pintar as unhas e se apresentarem como motoqueiras, a nova geração de sukeban tem noção do seu status e do seu papel na contínua evolução do país. O Broadly finaliza: “Ainda honrando sua herança, essas novas gangues encontraram conforto e uma plataforma para individualidade e rebeldia que se encaixa para elas, e para mais ninguém. ”

    Fontes: Broadly | Dazed & Confused