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  • W H T V R: O K-Pop que infantiliza também empodera

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    Você não precisa ser um usuário hardcore de internet para saber que a cultura asiática venera meninas doces e inocentes – o que cá entre nós, não é um problema. Mas depois de tanto falar (discutir), compartilhar e desconstruir o mundo inteiro a partir do Empoderamento Feminino eu comecei a pensar: como é a busca pela afirmação do girlpower em um continente que replica e glorifica o estereótipo da menina boba e infantil que precisa de um príncipe encantado?

    São poucas as fontes que falam sobre esse assunto, mas eu achei um texto do The Harvard Crimson com o qual eu concordo, e muito: “Quando mulheres de 20 anos cantam sobre o primeiro amor com letras do tipo “o que eu devo fazer”, “estou com tanta vergonha que não consigo olhar para você” “idiota”, acabam infantilizando mulheres maduras, dando a impressão de que são crianças e dependentes de homens mais velhos para que as ensinem sobre o amor. Esse tipo de comportamento traz não só a ideia de subordinação da mulher, mas também reforçam a ideia de que é aceitável se fingir de boba para atrair um parceiro.” GENTE, É ISSO!!!

    Para não ficar só no meu achismo de estrangeira que ama a conexão Japão-Coreia do Sul, eu trouxe a opinião de uma amiga sul-coreana muito amorzinho, Jeong Yeon Kim aka Jy, que pilhou responder algumas das minhas perguntas:


    Oi, Jy! Tudo bem? :)
    – Tudo certo! E com você, Ce?

    Quantos anos você tem e quais seus grupos/artistas favoritos de K-Pop?
    – Eu tenho 23 anos. Meus grupos favoritos são SHINEE, VIXX, TWICE e Lee Hi. A maioria são boy groups haha.

    O que você acha sobre a infantilização da mulher como um estereótipo?
    – Como a minha faculdade é apenas para mulheres, eu estudei bastante a respeito desses estereótipos e é um tópico bem interessante. Já faz tempo que as pessoas idealizam as mulheres como inocentes em relação ao amor, em relação à sua sexualidade e em relação à basicamente tudo. Antigamente, as mulheres não estudavam e eram dependentes de seus maridos, já que elas não trabalhavam e não possuíam qualquer poder aquisitivo. Sendo assim, as pessoas pensavam que uma mulher dependente era não só o tipo ideal, mas o mais natural na sociedade, o que naturalmente influenciava as jovens, idealizadas como doces, fofinhas e obedientes. Mesmo com as fortes mudanças na mídia ultimamente, esses estereótipos de infantilização e dependência ainda existem. Por exemplo, o k-drama Goblin: eu gosto muito de assistir a série, mas a heroína ainda é muito jovem e dependente. A maioria dos personagens masculinos são homens ricos que ocupam cargos importantes, enquanto as mulheres são pobres e tem uma vida simples. É esse tipo de mentalidade que gera um boom na Síndrome de Cinderella: mesmo que a mulher encare seus problemas de maneira positiva e alegre, ela ainda precisa de um príncipe para resolver seus problemas (financeiros) e fazer dela uma princesa. Inclusive, muitas músicas de k-pop trabalham a temática da garota tímida que não se encaixa.

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    As reações e atitudes infantis em relação aos homens, retratadas em doramas e nas músicas, são caricatas ou realmente representam uma parcela das mulheres?
    – Existem muitos doramas e músicas que dão destaque para jovens infantilizadas. Um exemplo disso é a música “Pick me”, do programa Produce 101. Ele é muito popular e propõe que o público vote pela sua garota favorita, considerando, por exemplo, a passividade dela. A maioria dos girlgroups tem passos de dança que representam meninas muito infantis, agindo de forma fofa e doce. Eu gosto muto de TWICE, mas TT e o “shy shy shy” de Cheer UP… Mesmo que isso não represente todas as mulheres, muitas jovens e adolescentes são afetadas por esse tipo de mídia. Elas pensarão que é atraente agir de maneira infantil e tímida. É algo subconsciente, mas que tem influenciado de maneira geral.

    Girl’s Generation, um dos girlgroups mais famosos, mudou bastante o seu conceito desde a época de “Gee” até “You think”, o último comeback. Você acha que tem relação com a expansão da música coreana ao ocidente ou é uma mudança dentro da própria Coreia do Sul?
    – Sim, elas mudaram muito ao longo dos últimos 10 anos. Com certeza é uma mudança por consequência do ocidente e também da mudança dentro da própria Coreia do Sul, mas eu acho que é principalmente porque elas cresceram. lol Geralmente quando um girlgroup novo debuta, o conceito é baseado em meninas inocentes, cheio de cores claras e brilhantes. Conforme elas vão ganhando popularidade, elas começam a mudar o conceito para algo mais femme fatale, bem sensual e com cores escuras. Mas existem exceções, como quando uma agência foca no ocidente e apostam no conceito sexy e cool, como 2NE1. Caso contrário, elas apostam no cute, voltado para o Japão, Coreia e Ásia em geral.

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    Black Eyed Girls e Miss A são dois exemplos de ggs que cantam sobre feminismo. Como foi a repercussão de Sixth Sense e I Don’t Need a Man?
    – A moda na Coreia se reflete nessas músicas. Ultimamente, o interesse em relação ao feminismo cresceu muito e existem problemas em relação à misoginia. Eu acho um ótimo sinal que os girlgroups estejam cantando sobre esse assunto. Primeiro os jovens mudarão e em seguida a cultura, de forma natural.

    Artistas como Beyoncé e Rihanna, que incorporam a sua sexualidade nas letras e performances, fazem bastante sucesso por aí?
    – Geralmente não, mas alguns artistas sim, como a Lee Hyori e a Hyuna.

    Quais artistas coreanas que cantam sobre empoderamento você recomendaria?
    – Dos que eu me lembro agora, eu gosto de “Woman president” do Girl’s Day. Eu acho que é uma temática importante. Também recomendo a YG Entertainment.


    Fonte: The Harvard Crimson

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  • W H T V R: A extinção das gyaru e o genderless kei

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    As ruas de Harajuku parecem estar aposentando um de seus movimentos mais coloridos e excêntricos. O estilo gyaru, que já foi uma associação quase instantânea à moda japonesa desde a década de 90 até os primeiros anos do novo milênio, está com os seus dias contados. As peças saturadas de cor, acessórios extravagantes e maquiagem forte bateu de frente com a tendência aesthetic, suave, cheia de tons pastéis e com uma pegada de 90’s, o mesmo apelo estético do novo hot trend, o genderless kei.

    A expressão através da moda sempre foi um prato cheio para a cultura nipônica, repleta de tendências e modismos que o resto do mundo nunca conseguiu acompanhar – muito menos entender. Os streetstyle decora, com acessórios super fofos, passando pelas lolitas e seu rococó francês, chegando na maquiagem pesada do shironuri, são alguns estilos de força incontestável. Durante a década passada, as gyaru eram vistas em grande número em distritos populares de Tóquio, como Harajuku e Akihabara. Mas, desde o fechamento das principais revistas sobre o tema, a egg e Koakuma Ageha em 2014, é quase impossível encontrá-las. Se até mesmo Natsumi Yoshida, uma das modelos mais importantes e requisitadas, considerada a personificação da alma gyaru, abandonou a pele alaranjada e os contornos em branco, o fim de uma era já estava por vir.

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    As tendências, as revistas, a mídia japonesa, a mídia internacional, as redes sociais, e, bom, quase todo mundo sempre deu mais spotlight para as garotas. Ainda que o genderless kei possa ser aplicado para ambos os sexos, por enquanto, os boys têm tido muito mais destaque. Eles não sentem vergonha do seu lado kawaii, posam com duck face e se apropriaram de um segmento da moda quase que exclusivamente voltado às adolescentes japonesas. Não são crossdressers, a maioria não é gay e não estão querendo se passar por mulheres. Eles querem se expressar através de um estilo que transcende a limitação de gênero de forma colorida e divertida.

    A popularidade dos looks andróginos tiveram ascensão quase instantânea depois dos desfiles apresentados na Tokyo Girls Collection 2015 Outono/Inverno. Na passarela, em certos momentos, as modelos quebraram a barreira entre os gêneros, desfilando peças de diferentes comprimentos sem um apelo feminino e delicado, geralmente visto nas coleções. No Tumblr, forte termômetro de aprovação (ou reprovação) das subculturas adolescentes, não demorou muito para perceber que a nova febre estava tomando a dashboard. Enquanto no Instagram, perfis voltados para o trend rapidamente ganharam reconhecimento – além de alguns milhares de seguidores e curtidas.

    マイマイテレフォン📲🌈💜✨✨ぷぷぷ!!

    Uma foto publicada por りゅうちぇる (@ryuzi33world929) em

    Dentre os genderless boys que seguem a linha kawaii, Ryucheru é o mais popular. Ele ficou conhecido por namorar a modelo Peco, que também é super famosa nas redes sociais. Com mais de 140mil seguidores no Instagram, seu estilo é cheio de roupas coloridas, maquiagem leve, cabelo em constante descoloração e uma faixa na testa.

     

    Blueな気分💙❄️🎠☁️💤

    Uma foto publicada por S͜͡A͜͡T͜͡O͜͡Y͜͡U͜͡P͜͡I͜͡ (@fuwafuwabubbub) em

    Apesar de Satoyupi não ter alcançado grandes números nas redes sociais, ele é um bom exemplo de que esse estilo não se limita a pessoas que sejam referência na moda. Ele é um cara normal que entrou para o #GenderlessTeam.

     

    Yohdi Kondo tem 24 anos e é uma das grandes figuras de Harajuku. Por conta do seu estilo, já estampou diversas capas de revistas adolescentes, o que acabou ajudando a alavancar a sua carreira como cantor. Além de ser chamado de a “versão masculina da Kyary Pamyu Pamyu“, Yohdi é considerado o líder do movimento por ter sido uma das primeiras celebridades a aderir ao estilo.

     

    mima color / bloc

    Uma foto publicada por とまん from XOX (@_sweatm) em

    Além de ter uma vida agitada como modelo, Toman é um dos integrantes da banda XOX (Kiss Hug Kiss). A inspiração para construir o seu visual veio de Yohdi, que, por sinal, é seu amigo. Sendo uma celebridade e referência de estilo, Toman geralmente é perguntado sobre o conceito por trás da subcultura. Em uma entrevista para a ModelPress ele falou sobre genderless kei:

     

    O cabelo extravagante, lentes coloridas, roupas de mulher e sapatos plataforma: isso é o que os genderless boys têm em comum. Além do fato de que usamos maquiagem e temos uma estética sofisticada. Apesar disso, não acho que eu esteja nesse grupo. Eu acho que faço parte por conta das pessoas a minha volta, constantemente dizendo que eu pertenço a esse grupo. Nós só vestimos o que gostamos e, a partir disso, a coisa se espalha naturalmente.

     

    Mesmo que seja bastante novo no Japão, a popularidade do genderless kei é impressionante. A adição de novas e importantes personalidades ao estilo, pode não só engrandecer o movimento, mas também trazer a oportunidade de repensar a moda voltada a um único gênero. (seria bem legal ver mais mulheres participando do movimento <3) Seja como for, estou ansiosa para ver o que esse estilo tem para apresentar ao mundo.


    Fontes: i-DMedium1 | Medium2 | Japan Today